Brasil na Segunda Guerra


Sete décadas depois de o presidente Getúlio Vargas enviar a Força Expedicionária Brasileira ao front europeu, as razões que levaram o País a entrar na Segunda Guerra Mundial ainda são alvo de grandes discussões. Durante muitos anos – e principalmente no período do conflito –, o Brasil posicionou-se como uma vítima de uma série de atentados inesperados, covardes e traiçoeiros, impelida pelas circunstâncias a lutar por sua honra e a buscar a vingança nos campos de batalha.
Uma análise mais distanciada da emoção que tomou conta da nação naquele agosto de 1942, quando mais de 600 brasileiros morreram nos afundamentos de cinco navios na costa nordestina, mostra que, sim, o Brasil foi vítima de atentados covardes e traiçoeiros. Entretanto, levando-se em conta a postura do governo brasileiro, tais ataques nunca poderiam ser classificados – como foram – de inesperados.
Desde os primeiros anos do conflito mundial, deflagrado em 1939, o Brasil mantinha-se oficialmente como um país neutro. Mais próximo ideologicamente dos regimes totalitários alemão e italiano do que da democracia norte-americana, o ditador brasileiro era visto na política internacional como um possível parceiro do Eixo caso resolvesse tomar partido no conflito. Apelidada de “Polaca”, a Constituição outorgada por Vargas em 30 de novembro de 1937, inclusive, inspirava-se nas leis fascistas do polonês Józef Pilsudski, morto em 1935, e incluía artigos claramente copiados do regime italiano de Benito Mussolini, o que aproximava ainda mais o Brasil das ditaduras europeias, ao menos do ponto de vista ideológico.
Por outro lado, a presença de Oswaldo Aranha, ex-embaixador do País em Washington e, desde 1938, ministro do Exterior, garantia aos Estados Unidos um sólido alicerce dentro do governo brasileiro. Além disso, durante os primeiros anos do conflito, as vantagens comerciais oferecidas pelo livre comércio, o financiamento da Companhia Siderúrgica Nacional e o aparelhamento militar brasileiro com recursos americanos – apenas para citar algumas razões – aproximaram decisivamente o Brasil dos Estados Unidos.
Até Walt Disney fez sua parte para promover a aliança entre os dois países. Hospedado no Copacabana Palace Hotel, no Rio, no começo dos anos 1940, o produtor e cineasta americano criou o personagem Zé Carioca, um retrato estereotipado do brasileiro, visto pelos irmãos do norte como um sujeito preguiçoso, mas, ao mesmo tempo, divertido. Em 1941, a criação do Ministério da Aeronáutica e da Força Aérea Brasileira, também com participação decisiva americana, selou de vez um possível pacto em caso de entrada dos dois países na guerra.
No fim daquele mesmo ano, em dezembro, o ataque japonês a Pearl Harbor precipitou o ingresso dos Estados Unidos no conflito. Um mês depois, em janeiro de 1942, o Brasil rompeu relações diplomáticas com o Eixo. O gesto, que enfureceu Adolf Hitler, foi o marco para a escalada de agressões e intimidações que se seguiram, tornando irreversível a opção de Getúlio Vargas pelo lado norte-americano.
No início de 1942, os alemães realizavam uma intensa campanha submarina no Atlântico, visando a impedir a chegada de suprimentos à indústria bélica americana. Após o rompimento de relações diplomáticas entre os dois países, os navios brasileiros – muitos deles carregados de borracha, usada em esteiras de tanques e em correias de motores – passaram a ser vistos como alvos extremamente aprazíveis para os submarinos nazistas.
Em 15 de fevereiro, o cargueiro Buarque foi o primeiro a ser atacado, próximo à costa americana. Depois disso, seguiu-se uma série de torpedeamentos a embarcações nacionais. Até julho, 15 navios brasileiros haviam sido atingidos, todos fora da costa do País, totalizando 136 mortos.
Àquela altura, os diplomatas alemães já não se esforçavam para justificar supostos enganos nos ataques a embarcações brasileiras. Nas entrelinhas, a mensagem era clara: não havia engano algum – e o Brasil estava pagando o preço por sua escolha.
Para que Getúlio se desse conta de que não havia como voltar atrás em sua opção pela trincheira aliada, faltava apenas um acinte à soberania nacional, um ataque deliberado a uma cidade brasileira ou a embarcações nacionais na costa do País. Entre 15 e 17 de agosto, Hitler deu a Vargas o empurrão que faltava para que este descesse do muro de sua hesitação.
Após o torpedeamento de cinco navios na costa nordestina, em um intervalo de menos de 72 horas, o povo tomou as ruas e exigiu a entrada do Brasil na guerra. Por todo o território nacional, estudantes, sindicalistas, políticos e empresários manifestaram sua revolta contra os atentados.
Em várias cidades, empreendimentos comerciais pertencentes a imigrantes do Eixo foram depredados. Placas com nomes italianos foram arrancadas e bandeiras nazistas, queimadas em praça pública. No Rio de Janeiro, estudantes passaram a perseguir os colegas de origem italiana, alemã e japonesa. Sem saída, Getúlio Vargas declarou estado de beligerância ao Eixo em 22 de agosto.
Curiosamente, repetia-se o roteiro de 1917, quando, depois de ataques de submarinos alemães a vapores brasileiros, o País decidira entrar na Primeira Guerra Mundial. Na ocasião, forçado por uma imensa revolta popular, o presidente Venceslau Brás optou pela trincheira aliada. Vinte e cinco anos, chegava a hora de Getúlio Vargas tomar uma atitude. Com o orgulho novamente ferido por um U-Boot, o Brasil abandonou definitivamente a neutralidade e, em 31 de agosto, declarou guerra à Alemanha e à Itália.

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