segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Carta para um herói

A tragédia que vitimou o Itagiba uniu vários destinos. O capitão do navio, José Ricardo Nunes, e o comandante do pelotão do Grupo de Artilharia de Dorso, o capitão José Tito do Canto, ambos já falecidos, foram os últimos a deixar o navio. No momento em que o Itagiba adernava, Tito do Canto pediu a Nunes que colocasse a esposa Noêmia e a filha Vera Beatriz na baleeira, enquanto ele próprio tentaria salvar os seus comandados, que gritavam por socorro.
Em carta enviada por Nunes a Tito do Canto em 8 de maio de 1944, escrita em papel timbrado da Organização Henrique Lage, proprietária da Companhia Nacional de Navegação Costeira, o comandante do Itagiba respondeu à correspondência remetida pelo militar dias antes, em 23 de abril. Além de fazer uma eloquente declaração de amizade, Nunes lamentava o fato de o planeta estar mergulhado em uma guerra mundial e elogiava a bravura de Tito do Canto durante o afundamento. A amizade entre os dois foi tanta que, posteriormente, o militar viria a batizar um de seus filhos com o nome de “José Ricardo”.
Segundo a filha de Tito do Canto, Vera Beatriz, o capitão carregou por muitos anos a tristeza de não ter conseguido salvar vários de seus comandados. “Papai tinha muita dor porque os soldados gritavam ‘capitão, me salve, capitão, me salve’ e ele se sentiu, ali, no meio do oceano, impotente para fazer alguma coisa. Papai sempre disse sentir muita dor, por não ter podido fazer nada.”
Confira a seguir um trecho da carta enviada pelo comandante do navio ao capitão Tito do Canto, em 8 de maio 1944, quase dois anos após o naufrágio do Itagiba.

No dia 23 de abril teve o meu grande amigo a lembrança de me escrever a primeira carta. Dia 23 de abril é o Dia de São Jorge e neste mesmo dia, no ano de 1900, minha querida mãe me lançou neste mundo de misérias, neste planeta atrasado que a humanidade cognominou TERRA. Apesar dos sofrimentos que tenho passado, grandes alegrias eu tenho também sentido. Uma das maiores alegrias que tenho ainda guardada no meu coração foi ter salvo a sua boa e querida esposa D. Noêmia e a sua linda e extremosa filhinha Vera Beatriz. (...)
Eu me senti e me sentirei sempre orgulhoso de possuir a amizade de meu grande e valente Capitão Canto. Não poderei esquecer jamais a sua coragem. Um homem que entrega sua esposa e sua filhinha em um momento tão crítico ao capitão do navio e vai cuidar dos seus soldados até o momento em que o Itagiba afundou, este homem não se pode chamar somente um grande homem e sim um grande herói. Eis a razão por que eu jamais esquecerei o meu grande e valente Capitão Canto.


(Reportagem publicada no Diário de S.Paulo, em 8/5/2011)

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